podcast do isaúde brasil

Publicada em 17/05/2020 às 11h42. Atualizada em 17/05/2020 às 11h54

O luto nos tempos do vírus

“Estar enlutado significa experienciar um processo de reajustes intensos e muitas vezes demorados”

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A morte é um evento inerente ao ser humano. Como única espécie que, através da linguagem, busca um sentido para compreender a mortalidade, o homem desenvolve crenças, ao longo de processo histórico de sua existência, para tentar acessar o enigma da morte.

Morrer, além de ser um evento único e biológico, tem uma dimensão antropológica, espiritual, psíquica, social, religiosa, filosófica e pedagógica. O processo do luto vivido pela perda resultante da morte é uma reação singular permeada pelas experiências obtidas ao longo da vida e do seu contexto histórico-cultural. 

Uma das frases que frequentemente ouvimos é que o luto é o preço que se paga por amar alguém. Estar enlutado significa experienciar um processo de reajustes intensos e muitas vezes demorados. Existem vários tipos de luto, um deles é o antecipatório, que costuma acontecer com pessoas que estão adiantando o momento da morte próxima, como ocorre, por exemplo, no caso dos familiares de pacientes com câncer em quadro avançado da doença.

No cenário atual de pandemia do COVID-19, o luto antecipatório aparece como pano de fundo de uma população que teme a ameaça da morte, assim como, para quem a doença vai chegar e como vai ser sua forma clínica, podendo ser aquela fatal. 

Imaginem essa cena: de um lado, um idoso que relata não estar suportando a privação de contato com seus filhos e netos e que, sendo assim, ele prefere correr o risco de adoecer; do outro, os filhos que têm uma percepção diferente e optam por preservar o pai dessa ameaça. É um relato comum que é permeado por angústia de ambos, como muitas outras situações que ouvimos neste contexto.

" ... você colocaria sua mão no fogo pelo seu sistema imunológico?"

O luto está no ar, mas, diferentemente do câncer que é visível, uma vez que se sabe quem é o paciente e há um tempo de preparação no processo, no caso da COVID-19, qualquer um pode ser por ele acometido, de modo que até mesmo um indivíduo previamente hígido está sujeito a ser infectado e vir a óbito de repente. O que se sabe é que existem os grupos de risco. No entanto, você colocaria sua mão no fogo pelo seu sistema imunológico?

A recomendação que se dá no caso do luto antecipatório em familiares de pacientes com doenças graves é que se possa viver o presente e dar conta do que é possível. O objetivo é cuidar da relação com o doente para que o luto posterior seja amenizado, sem muitas pendências afetivas. 

"Essa é uma doença coletiva, o que significa que o autocuidado reflete um cuidado com o outro, a exemplo do uso da máscara que é feito por quem usa e por quem o rodeia."

No caso da COVID-19, a recomendação é a mesma: cuidar do aqui e agora, ou seja, zelar de nós mesmos e do outro, já que não temos repertório passado que nos ajude a lidar com essa nova realidade e ficar preso em prospecções futuras pode ser muito angustiante. Essa é uma doença coletiva, o que significa que o autocuidado reflete um cuidado com o outro, a exemplo do uso da máscara que é feito por quem usa e por quem o rodeia. Assim como ocorre com o isolamento social, me protejo da doença e demonstro afeto pelo outro ao mesmo tempo. 

Então, retoma-se, o luto é o preço do amor e por amor nos cuidamos e protegemos o outro para que a perda em si não se concretize. Não queremos perder ninguém, apesar de sabermos que as perdas fazem parte da vida. 

Outro tipo de luto, o complicado, é aquele em que o sobrevivente sente culpas, ansiedades, depressão, raiva intensificada pela perda. Um dos fatores que pode gerar um luto complicado é a perda repentina, inesperada e a impossibilidade de se despedir. Ou seja, tudo o que o cenário atual propicia: mortes de pacientes isolados e sem possibilidades de ritualizar a morte, de se despedir.

A inundação constante de informações ativa uma crença de que, se bem informados, estamos mais protegidos desse invisível inimigo que se põe, que se impõe, que liquida. Porém, quanto maior o número de informações, mais cresce o sentimento de medo, de desesperança, de angústia, pois nos deparamos com a possibilidade da morte iminente, nossa e dos nossos queridos companheiros da vida.

Pela primeira vez, assistimos estarrecidos um volume de mortes comparável a grandes guerras mundiais em um único dia. E pensamos, como é que pode isso? Que vírus devastador, letal, terrível, assustador! Mergulhamos em um profundo sentimento de medo e angústia ao assistir a cena dos caixões lacrados, sem familiares, sem despedida, sem ritual!

"...cada cultura lida com a morte com suas especificidades, religiões, credos, tempo de elaboração, rituais, a importância nesta cultura do lugar que ocupa este sujeito e o tipo de morte."

Sabemos que a morte é presente, e, de alguma forma, nos deparamos com ela, pensando ou negando a sua existência. De algum jeito, ao longo da vida vamos nos preparando, no ciclo natural da existência humana, a compreender a morte. A compreensão do luto como a possibilidade de transitar entre o indivíduo presente e o futuro sem ele, de compreender que a vida vai seguir, é processo fundamental na rearrumação dos vínculos. Para isso, cada cultura lida com a morte com suas especificidades, religiões, credos, tempo de elaboração, rituais, a importância nesta cultura do lugar que ocupa este sujeito e o tipo de morte. 

No Brasil, há a necessidade de manutenção de um ritual que vai desde a notícia da morte, a vestimenta do morto, o ritual do velório até chegar ao sepultamento ou cremação. Ali, há uma concepção de que se fechou um ciclo. O choro, os sentimentos ambíguos e aos poucos a retomada vão escrevendo um novo processo de vínculo com nosso ente querido que partiu.

Daí vem um vírus, uma pandemia, uma realidade onde não podemos cumprir esse ritual, nos debruçar sobre essa dor e nem, tampouco, fechar esse ciclo. Neste momento, acende um sentimento de vazio, um sentimento de morte banal, que não era para ocorrer se não fosse o vírus. Ninguém se consola pelo seu ente querido com fator de risco morrer pelo COVID. Era diabético ou hipertenso ou idoso, mas estava bem. Não morreria pelas doenças de base, pelo menos não ainda. Isso provoca um sentimento de desamparo e de desolação que podem gerar complicações no luto. Teremos pessoas em luto complicado, temos pessoas em luto antecipatório. A morte está diariamente sendo contabilizada e anunciada. Estamos, ao fim, assistindo constantemente a cenas temidas e de pesadelo.

E o que ajuda o luto? O processo de elaboração. O luto precisa ser escutado no detalhe, seja ele real ou o imaginário. As pessoas precisam poder falar sobre isso enquanto vão concentrando suas vidas nas suas rotinas, no presente, no cuidado e autocuidado, na arte, na literatura, no amor.

"O luto precisa ser escutado no detalhe, seja ele real ou o imaginário."

Ajudar uma pessoa em luto implica identificar quais são os recursos que dispõe e o que a aflige. A escuta cuidadosa, a busca de uma rede social e da criação de estratégias para ajudá-la a tomar difíceis decisões são pertinentes neste cuidado inicial.

Neste processo de cuidado ao enlutado, é fundamental ouvir seus medos, fantasias, crenças e a compreensão do processo de construção da ideia da morte do outro. Ao perceber-se frágil e com dificuldade de seguir sua rotina, é importante flexibilizar o tempo e permitir a inserção no mundo real cotidiano aos poucos. Além disso, o terapeuta pode proporcionar, neste momento, técnicas que serão executadas em seu tempo de elaboração, como a de resolução de problemas, automonitoramento e habilidades de inserção social, a fim de que o sujeito se sinta inscrito na possibilidade de seguir em frente. Cuidar, acolher, proporcionar uma escuta ativa são recursos fundamentais para uma pessoa em processo de luto. 

O mesmo amor que faz entrarmos no luto o ameniza. Por amor, temos que nos levantar, dar conta do cotidiano diferente pelo isolamento e reinventar as nossas formas de estar no mundo.

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