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Publicada em 06/10/2015 às 19h00. Atualizada em 15/10/2015 às 08h02

O prazer do risco; viciados em adrenalina. Será?

Neste artigo, o neurologista Dr. Humberto de Castro Lima nos explica o que ocorre em nosso corpo durante as situações de perigo e por que podemos buscar prazer nessas situações.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Todo mundo já sentiu o coração acelerar, os pelos ficarem arrepiados e a visão ficar embaçada diante de uma situação de perigo. Estes são alguns efeitos provocados pela adrenalina no nosso corpo. Essa substância é produzida pelas glândulas adrenais, sendo liberadas diretamente na corrente sanguínea. Juntas, a adrenalina e a noradrenalina funcionam como os principais neurotransmissores da divisão simpática do sistema nervoso autônomo. 

O sistema nervoso autônomo é a parte que controla, de forma inconsciente, diversas funções vitais. Existem duas divisões principais: a parassimpática e a simpática. Elas trabalham em conjunto para manter o equilíbrio das funções orgânicas, o que é chamado de homeostase. Enquanto o sistema parassimpático está mais envolvido com situações de “repouso e digestão”, o sistema simpático está envolvido com situações de “luta ou fuga”. Diante de uma ameaça, ocorre uma intensa ativação do sistema simpático com uma liberação de uma onda de adrenalina e noradrenalina. Estas substância levam à dilatação da pupila, permitindo que mais luz atinja a retina, aumentam a sudorese, a frequência cardíaca e a força de contração do coração, elevam a pressão arterial e contraem os vasos sanguíneos da pele, direcionando o fluxo sanguíneo para órgão vitais e músculos importantes para o combate e para a corrida. Ou seja, preparam seu corpo para enfrentar situações arriscadas.

É comum dizer que os praticantes de esportes radicais são viciados em adrenalina. Mas será que isso é verdade? O que faz um indivíduo racional sair da segurança do seu sofá para saltar de um avião em pleno voo, mergulhar com tubarões, escalar o Evereste ou surfar ondas gigantes? Se você perguntar a um desses “loucos por adrenalina” por que eles gostam de se arriscar, provavelmente terá respostas do tipo “isto é minha vida” ou “isto me faz me sentir vivo”. Concordo que, quando você sente seu coração disparar, isto dá uma sensação nítida de estar vivo. Mas será que se você injetar adrenalina na veia “desses viciados” eles terão uma sensação boa? Duvido.  Por outro lado, do ponto de vista da seleção natural e da teoria da evolução das espécies, parece ser vantajoso que alguns indivíduos de determinada espécie tenham maior propensão para buscar novidades e assumir riscos. Isto permitiu que nós, humanos, conquistássemos novos territórios, atravessássemos oceanos e, inclusive, visitássemos o espaço sideral... Mas, se não é a busca por adrenalina que gera esse comportamento, qual é a explicação neurobiológica para essas pessoas que sentem prazer em se arriscar? Parece que a protagonista dessa história é a DOPAMINA.

A dopamina também é um neurotransmissor e exerce diversas funções no nosso sistema nervoso. Ela está relacionada com a sensação de recompensa. Quando completamos uma tarefa difícil, ela é liberada no nosso cérebro, assim como quando ganhamos uma aposta, quando comemos algo gostoso, ou quando escorregamos em um tobagã bem alto. A dopamina parece ser o neurotransmissor relacionado com essa sensação de “missão cumprida” e de prazer. Há diversas evidências científicas que reforçam a relação da dopamina com o prazer e, recentemente, pesquisadores da universidade Vanderbilt demostraram que os cérebros de indivíduos com traços de personalidade exploratória, ou seja, aquelas pessoas que sempre estão em busca de novidades e que gostam de assumir mais riscos, respondem de forma diferente à dopamina. Na verdade, os pesquisadores demonstraram que essas pessoas têm menos receptores que inibem a liberação de dopamina e, portanto, toda vez que elas experimentam algo novo, ocorre uma liberação maciça de dopamina, o que provoca uma enorme sensação de prazer. Com isso, esses indivíduos teriam uma maior tendência em buscar situações excitantes e desafiadoras, pois estariam sempre tentando ter a sensação de bem-estar provocada pela dopamina. 

Portanto, meus caros, quem é aventureiro, gosta de se arriscar e está sempre em busca de novidade, não é “viciado em adrenalina”, e sim, está querendo cada vez mais DOPAMINA.

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