podcast do isaúde brasil

Publicada em 08/05/2019 às 11h30. Atualizada em 15/05/2019 às 10h53

Por que algumas mulheres grávidas enjoam e têm vômitos na gestação?

Saiba mais sobre a êmese gravídica.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Presença de vômitos persistentes e não controlados, perda de peso, cansaço muscular, desidratação, produção excessiva de saliva, entre outros sintomas, pode ser indicativo de um quadro de êmese gravídica ou NVG (náuseas e vômitos na gravidez). Várias teorias buscam explicar as causas da êmese gravídica. As principais teorias são as provenientes de estudos endócrinos, genéticos, de infecção pelo helicobacter pylori e psicogênicos. A evolução do quadro de NVG com necessidade de tratamento farmacológico acomete cerca de 10% das gestações. Já os quadros mais graves de vômitos em gestantes, denominados de hiperêmese gravídica, correspondem a 1,1% de todos os quadros de NVG. “O período de incidência entre cinco e nove semanas ocorre em mais de 90% das gestações, e vai reduzindo progressivamente, tornando-se ocasional após o marco de 20 semanas. Os quadros tardios devem ser reavaliados para confirmar se realmente são decorrentes de NVG”, alerta a Dra. Márcia Sacramento Cunha Machado, que é professora adjunta da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, secretária geral da Associação de Obstetrícia e Ginecologia da Bahia (Sogiba) e membra da CNE Infanto-Juvenil FEBRASGO.

iSaúde Brasil – Toda mulher grávida enjoa? Por que isso acontece?
Márcia Sacramento Cunha Machado – A prevalência de náuseas e de vômitos na gestação calculada em torno de 85%, sendo que, em 25% dos casos, observa-se exclusivamente o quadro de náusea matinal (em inglês, “morning sickness”), e, no restante das gestantes, diversos graus de êmese (vômito) associado à náusea. A evolução do quadro de NVG com necessidade de tratamento farmacológico situa-se em torno de 10% das gestações. Por sua vez, os quadros mais graves de vômitos nas gestantes, denominados de hiperêmese gravídica, respondem por 1,1% de todos os quadros de NVG.

A êmese gravídica possui base etiopatogênica multifatorial, onde a somatória de teorias tenta explicar a sua ocorrência. As principais teorias são as provenientes de estudos endócrinos, genéticos, de infecção pelo helicobacter pylori e psicogênicos.

iSaúde Brasil – Quais são os principais sinais e sintomas da hiperêmese gravídica?

Márcia Sacramento Cunha Machado – A presença de vômitos (incapacidade em ingerir alimentos líquidos ou sólidos) persistentes e não controlados durante o período gestacional, na ausência de outra causa etiológica, perda de peso, cansaço muscular, desidratação, sialorreia (produção excessiva de saliva), hipovolemia (diminuição anormal do volume do sangue), desequilíbrio hidroeletrolítico (desidratação), hematêmese (sangramento do trato respiratório).

iSaúde Brasil – Esses enjoos aparecem em que momento? Duram a gestação inteira?

Márcia Sacramento Cunha Machado – O período de incidência entre cinco e nove semanas ocorre em mais de 90% das gestações, reduzindo progressivamente e tornando-se ocasional depois de 20 semanas. Os quadros tardios devem ser reavaliados para confirmar se realmente trata-se de NVG.

iSaúde Brasil – Existe alguma dieta capaz de melhorar esse quadro?

Márcia Sacramento Cunha Machado - Todas as gestantes devem receber este tipo de orientação, independente de apresentarem qualquer sintoma de NVG. O maior tempo de esvaziamento gástrico, menor produção e escoamento biliar, menor tolerância ao jejum prolongado e muitas outras alterações levam a gestante a ter que adotar dietas mais leves, menos gordurosas e em intervalos menores, como também evitar ingestão de líquidos nas primeiras duas horas do dia.

Saúde Brasil – A hiperêmese pode prejudicar muito o organismo ou sobrecarregar algum órgão? O bebê pode ser prejudicado?

Márcia Sacramento Cunha Machado – A gravidade dos vômitos na gravidez tem influência no comprometimento sistêmico, com reflexo direto sobre as funções hepáticas e renais. Com a piora dos vômitos e sem correções dos desvios metabólicos já instalados, há o risco de que o comprometimento afete o sistema cardiovascular (arritmias) e o sistema nervoso central. A espoliação vitamínica e de aminoácidos, precursores da formação dos neuromediadores, predispõe o aparecimento de alterações comportamentais e neurológicas de intensidades variadas, até mesmo o aparecimento da síndrome de Wernicke [nota do editor: forma incomum de amnésia que combina duas doenças: um estado de confusão aguda (encefalopatia de Wernicke) e um tipo de amnésia de longo prazo].

Considerando o embrião-feto, observa-se o prolongamento do período de exposição da placenta e do feto aos efeitos nocivos dos desequilíbrios hidroeletrolíticos e metabólicos decorrentes desses agravos, podendo prejudicar a evolução da gravidez, elevando as taxas de trabalho de parto pré-termo, de crianças pequenas para a idade gestacional e de baixo peso ao nascer. Além disso, esses distúrbios metabólicos são arrolados também como fatores que interferem negativamente sobre o neurodesenvolvimento embrionário e fetal.

iSaúde Brasil – O quadro é mais comum na primeira gestação ou pode se dar em qualquer gravidez?

Márcia Sacramento Cunha Machado – As mulheres com história de NVG em gestação anterior, obesas, com irmãs ou filhas que apresentaram NVG e nulíparas (que nunca pariram) jovens apresentam maior risco de desenvolver NVG e suas formas graves. Mulheres com gestação múltipla ou molar parecem ter risco elevado por conta de maiores valores de gonadotrofina coriônica (GC).

iSaúde Brasil – Existe alguma forma de evitar ou prevenir a hiperêmese?

Márcia Sacramento Cunha Machado – Seguir as orientações gerais alimentares (descritas acima) indicadas para todas as gestantes e algumas medidas complementares não convencionais para os casos específicos. As gestantes com náuseas matinais e episódios esporádicos de vômitos são candidatas a medidas, como a acupressão (pressão em ponto específico das mãos), aromaterapia (utilizando os florais de Bach), acupuntura realizada por profissional adequadamente preparado, hidroginástica e outras atividades físicas de baixo impacto articular, uso de vitaminas com ação antináuseas como a piridoxina (vitamina B6) e ingesta?o do gengibre que possui leve ação antiemética.

iSaúde Brasil – Ela tem alguma relação com a depressão pós-parto? 

Márcia Sacramento Cunha Machado – Mulheres que apresentam o quadro de NVG podem manifestar recorrências em gestações futuras, sendo preocupante o achado de recentes estudos que mostram a possibilidade de persistência posterior de disfunções emocionais em mulheres que apresentaram as formas mais graves de hiperêmese gravídica.

iSaúde Brasil –Um estudo desenvolvido na Noruega mostrou que a angústia e a depressão seriam mais efeitos do que causa da NVG.

Márcia Sacramento Cunha Machado – Os eventos adversos ou estressantes na vida da gestante com o seu meio social que poderiam estar associados com NVG são a gravidez não programada, a rejeição à maternidade, a rejeição ao pai, a imaturidade emocional, o temor do ganho de peso, as situações de violência, a pobreza, a busca de compensações, a insegurança, as limitações financeiras e a estabilidade no emprego, entre outras. 

Referências:

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