podcast do isaúde brasil

Publicada em 03/04/2013 às 00h00. Atualizada em 03/04/2013 às 09h35

Por que o vovô vai morar em outra casa?

O momento é difícil, mas é preciso saber quando e se vale a pena encaminhar os idosos para uma casa de repouso. Confira o artigo da terapeuta ocupacional Ana Cláudia Silva.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"As mudanças no contexto social influenciam na relação de cuidado com o idoso. As famílias têm sofrido mudanças na sua constituição, novos arranjos familiares e núcleos familiares reduzidos".

Essa é uma questão muito delicada, mas com o número crescente de idosos na nossa sociedade tem-se tornado cada vez mais comum. As mudanças no contexto social influenciam na relação de cuidado com o idoso. As famílias têm sofrido mudanças na sua constituição, novos arranjos familiares e núcleos familiares reduzidos.  Outro fator que influencia esse contexto é o fato da consolidação da inserção da mulher no mercado de trabalho e a necessidade de conciliar os diversos papéis sociais, inclusive afastando-se do papel de principal cuidadora na família. Todos esses fatores têm provocado uma diminuição do suporte familiar para os idosos e incidem na substituição dos cuidados, em um momento de franco crescimento da população idosa. Nesse contexto, é crescente o número de idosos que, por diversos motivos, estão impossibilitados de permanecerem no domicílio junto às suas famílias. Sendo assim, o cuidado do idoso tem sido, muitas vezes, transferido aos abrigos ou Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), como é chamada a moradia destinada aos idosos atualmente. 

A decisão de ir morar em uma instituição pode ser tomada pelo próprio idoso ou pela família, porém precisa ser cuidadosamente avaliada, considerando vários fatores. 

Em uma família que tem um contexto favorável à permanência do idoso, é importante explorar todas as possibilidades para a sua manutenção no lar. As preocupações devem ser voltadas para a presença de cuidador capacitado, quando necessário; o fortalecimento e/ou renovação da rede de apoio social e envolvimento do idoso em atividades prazerosas, valorizando o lazer (encontros com amigos, grupos de convivência etc.).

Em meio a tantas mudanças na sociedade, o idoso sofre com a rede social empobrecida, em virtude da saída dos filhos de casa, da viuvez e perda de amigos; presença de doenças que contribuem para a dependência funcional, onde a limitação na funcionalidade pode se apresentar precocemente. Para auxiliar a família e o idoso a lidar com o processo de envelhecimento e suas repercussões na saúde, pode-se contar com a atenção de pessoal qualificado, como terapeutas ocupacionais e outros membros da equipe de saúde, que podem contribuir para diminuir os impactos desse processo,  a partir da possibilidade do envelhecimento ativo.

Caso seja inevitável a ida do idoso para uma moradia, alguns critérios precisam ser observados na escolha desse local. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabelece, através do documento Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 283 / 2005, o regulamento técnico que rege o funcionamento de Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), onde são listados critérios com o objetivo de estabelecer o padrão mínimo de funcionamento das instituições. Entretanto, esse documento, por dispor de aspectos amplos, deixou de lado vários pontos importantes. 

Os aspectos importantes a serem observados e que não estão definidos na normatização dizem respeito à rotina da instituição. É interessante que ocorram iniciativas que estimulem os idosos, como por exemplo, a sua inserção em atividades próprias da rotina, promovendo independência nas atividades de autocuidado. Outro fator de relevância é a inclusão de profissionais da área de saúde (enfermeiro, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo, terapeuta ocupacional e outros) que identifiquem demandas e desenvolvam planejamento específico para o público idoso. 

O idoso e familiar de referência devem conhecer previamente o ambiente e a dinâmica da casa para observar se a privacidade dele será preservada e realizar uma melhor adaptação à sua nova morada. Algumas perguntas precisam ser respondidas durante a pesquisa da instituição: a quantidade de idosos por quarto, o que fazem durante o dia, quantos cuidadores são disponibilizados por turno, número total de residentes, onde serão acomodados os objetos pessoais, horário de visita, possibilidade e horários de saída e retorno do idoso e acesso do familiar à instituição. 

Tantas perguntas são importantes, pois além da estranheza do local e das pessoas, os hábitos pessoais podem também ser tolhidos de alguma forma.  A ida para uma instituição, embora seja uma alternativa importante na atualidade, pode gerar impactos relevantes na funcionalidade do idoso.  Esses impactos ocorrem em virtude do seu distanciamento da sua rede social, além da necessidade de adequação aos padrões e rotinas institucionais que nem sempre respeitam sua individualidade e autonomia. 

"Aqueles idosos que decidem ir morar em uma instituição, muitas vezes fazem essa escolha por compreender as dificuldades da família e, ainda, por preferir a “badalação” desses locais, desde que bem escolhidos".

Aqueles idosos que decidem ir morar em uma instituição, muitas vezes fazem essa escolha por compreender as dificuldades da família e, ainda, por preferir a “badalação” desses locais, desde que bem escolhidos. Mas, caso o seu vovô não seja descolado o suficiente para tomar essa decisão, ajude-o a compreender a necessidade da mudança e faça-o participar da escolha da instituição que garanta o seu conforto e  respeite. É importante não esquecer que a atenção familiar e dos amigos é essencial para o seu bem-estar. Lembre-se que o vovô só estará em um lugar novo, longe do seio da família, mas continua sendo o mesmo, uma referência para a família, assim como é referência de toda a sua vida.

Infelizmente, não é só a difícil decisão de morar ou não em uma instituição que preocupa idosos e familiares. O abandono e a falta de cuidados que podem sofrer em qualquer espaço, caracterizam violência contra a pessoa idosa e também preocupam. O número de denúncias, seja ela física, sexual ou psicológica, tem crescido no Brasil, mas este é um assunto para outro tópico!! 

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