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Publicada em 25/08/2020 às 16h22. Atualizada em 25/08/2020 às 16h25

Riscos ampliados: enfrentando a COVID-19 e as arboviroses ao mesmo tempo

Além do coronavírus, dengue, chikungunya, zika e febre amarela também pedem cuidados.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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A COVID-19 foi elevada ao status de pandemia e atingiu continentes e distintas regiões do mundo. Todos os dias, populações mais vulneráveis, principalmente as que vivem em situação de pobreza, sem saneamento apropriado e em contato constante com artrópodes vetores e animais reservatórios, estão expostas a essas enfermidades, transmitidas por insetos. 

As chamadas arboviroses – dengue, chikungunya, zika e febre amarela – são adquiridas por transmissão vetorial (picada de insetos), seja dentro ou ao redor das casas. Isso ocorre tanto em áreas urbanas, quanto rurais. No início da pandemia de COVID-19, as pessoas foram instruídas a ficar em casa, e sair apenas para obter comida ou ajuda médica. Essa estratégia de isolamento social se replicou como a principal forma de conter a propagação do novo coronavírus. 

Entretanto, construções precárias, imóveis abandonados, falta de água, urbanização desordenada e falta de políticas públicas em saúde, vem favorecendo a presença de insetos vetores e seus criadouros, dentro e ao redor dessas habitações. De forma geral, a população também não tem o hábito de contribuir para um controle efetivo dessas enfermidades, e acaba permitindo que criadouros para os insetos se formem em suas casas e terrenos. 

No contexto da crise que o Brasil está atravessando, e na forma como vem respondendo à essa crise, é presumível que as arboviroses estarão colocadas em segundo plano. Questões econômicas e de recessão fragilizam ainda mais a vigilância entomológica, especialista em insetos e nas suas relações com os humanos, as plantas, outros animais e o ambiente. Com o controle de vetores fragilizado, a população, isolada em casa, fica ainda mais exposta. 

"A profilaxia e controle sobre insetos vetores, em especial aquelas feitas pelos ACSs (Agentes de Controle de Endemias) foi quase interrompida neste período de isolamento social, estando o Aedes aegypti praticamente fora de controle. "

A profilaxia e controle sobre insetos vetores, em especial aquelas feitas pelos ACSs (Agentes de Controle de Endemias) foi quase interrompida neste período de isolamento social, estando o Aedes aegypti praticamente fora de controle. Sem contar que nunca choveu neste período como nos últimos anos, o que favorece bastante a reprodução de mosquitos. Nas regiões mais vulneráveis e endêmicas do Brasil, cresce o risco na incidência de arboviroses. 

Ao mesmo tempo

Esse cenário, que já é preocupante, torna-se ainda mais grave se considerarmos que as pessoas podem ter essas infecções simultaneamente ao novo coronavírus. A sazonalidade também agrava os riscos. 

São vírus diferentes, transmitidos por vias distintas, que atacam sistemas diferentes e que podem se agravar em grupos de risco mais vulneráveis. Enquanto as arboviroses são transmitidas pela picada do mosquito Aedes aegypti, o SARS-CoV-2 (coronavírus/ doença COVID-19) da pandemia atual é transmitido pelo ar, adentrando o patógeno pelas vias respiratórias.

Os arbovírus têm caráter mais sistêmico, se disseminando por todo o corpo, daí podem levar às manchas e dores articulares, por exemplo. Já o SARS-CoV-2 acomete mais as vias respiratórias, o que pode levar à insuficiência respiratória e consequências graves. Os grupos de maior risco, para agravamento dos casos da COVID-19, são idosos e pessoas com comorbidades, como hipertensão, diabetes ou outras doenças crônicas. Importante salientar que, em teoria, todos somos vulneráveis.

Vale destacar ainda que o Aedes aegypti pode transmitir os três vírus ao mesmo tempo, por meio de uma única picada – dengue, zika e chikungunya. A pessoa pode então ter uma "tripla infecção", o que vai depender dos arbovírus circulantes. As consequências dependerão do vírus que mais se multiplicar e sobressair, ou mesmo dos sintomas decorrentes das três doenças e da resposta imune dos indivíduos infectados.

No corpo

Os vírus são parasitos intracelulares obrigatórios; ou seja, precisam das células humanas para se reproduzirem. Os sintomas dessas três arboviroses na fase aguda (início) são muito parecidos quando presentes: febre, dores de cabeça, nas articulações, manchas pelo corpo e coceira intensa. 

"Com o passar dos dias, aquela doença que mais se sobressair, pode apresentar suas consequências, tais como dores articulares que se prolongam por meses, como no caso da chikungunya. "

Com o passar dos dias, aquela doença que mais se sobressair, pode apresentar suas consequências, tais como dores articulares que se prolongam por meses, como no caso da chikungunya. Há também o risco de má formação congênita (microcefalia) em gestantes que se infectam pelo zika vírus. No caso da dengue, há o risco de dengue hemorrágica.

Teoricamente, as infecções conjuntas são mais severas. O sistema imune (nosso sistema natural de defesa) teria dois ou três "problemas", ao mesmo tempo, para resolver. Estando tudo em equilíbrio, ao se tratar do sistema imune de cada indivíduo e dos tratamentos e acompanhamentos médicos especializados, partiríamos para a cura, sem dúvidas. 

Na grande maioria das pessoas é assim. Já aqueles indivíduos mais vulneráveis, por diferentes fatores tais como idade, gestação, doenças crônicas preexistentes, doenças autoimunes, precisam estar ainda mais atentos. Aos primeiros sinais dessas enfermidades, a recomendação é procurar logo atenção médica.

Em épocas de epidemias e pandemias, como a que estamos vivendo, esse cuidado deve ser reforçado. Ao se automedicar, as pessoas correm o risco de mascarar sintomas, que com o tempo podem se agravar. Devem procurar as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento-24h), que, dependendo do agravamento do caso, são “as portas de entrada” para os hospitais especializados.

As pessoas que contraem as arboviroses dengue, zika e chikungunya ficam imunizadas. Para a COVID-19, por ser uma doença ainda “desconhecida”, estudos apontam que sim, também. Só é preciso chamar a atenção para a dengue, que possui quatro variantes do vírus, denominados DEN-1, DEN-2, DEN-3, DEN-4. Quem é infectado por um novo sorotipo pode vir a ter risco maior para dengue hemorrágica. 

“A cura está ligada ao tempo e, às vezes, também às circunstâncias”, disse Hipócrates. Assim, como não existem, até então, vacinas para imunização em massa contra essas doenças virais, vamos nos prevenir com as medidas já conhecidas contra a COVID-19 e as arboviroses. Higiene, limpeza das mãos e alimentos com água e sabão ou álcool 70%, uso de máscaras e combate diário aos criadouros do Aedes aegypti.

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