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Publicada em 20/05/2020 às 11h45. Atualizada em 25/05/2020 às 07h49

Saiba mais sobre a alteração no paladar no paciente oncológico

Conhecido como disguesia, o fenômeno diminui ou modifica o paladar.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O paladar faz parte dos cinco sentidos corporais e atua nas sensações de gostos doce, salgado, amargo, azedo e umami. As sensações de gosto surgem a partir da interação entre substâncias químicas, que são levadas pelos nervos até os seus receptores da gustação (papilas e botões gustativos), assim forma-se o sistema gustatório. O paladar é importante, pois permite que um indivíduo reconheça e selecione substâncias específicas de acordo com os seus desejos e vontades e com as necessidades metabólicas dos tecidos corporais, além disso certos gostos podem desencadear intensas respostas emocionais ou memoriais. 

"Essas alterações podem ser transitórias ou permanentes e apresentar, ainda, consequências significativas para o cotidiano dos indivíduos, estando relacionadas com mudanças no lazer, alimentação e emocionais."

Alterações nas funções gustativas mais conhecidas são: hipogeusia (diminuição do paladar), hipergeusia (sensibilidade aumentada para qualquer gosto), fantogeusia (distorção do paladar sem estímulo externo, geralmente constante gosto amargo), parageusia (distorção do paladar por um estímulo específico, geralmente sentindo mau gosto ou gosto errado) e ageusia (perda completa do paladar), porém convenciona-se adotar o termo disgeusia para qualquer distorção ou diminuição do paladar. Essas alterações podem ser transitórias ou permanentes e apresentar, ainda, consequências significativas para o cotidiano dos indivíduos, estando relacionadas com mudanças no lazer, alimentação e emocionais.

Embora as modificações na capacidade de distinguir os gostos estejam na maioria das vezes associadas com o avanço da idade, elas podem ocorrer também em resposta às diversas influências secundárias, a exemplo dos efeitos colaterais de medicamentos ou efeitos de algumas doenças, incluindo doenças na boca (câncer e candidíase), doenças respiratórias, distúrbios neurológicos (doença de Parkinson, depressão, esquizofrenia) e endócrinos (diabetes), tabagismo (uso de cigarro) e deficiências nutricionais (principalmente de zinco e vitamina B12).

Pacientes com câncer são susceptíveis a desenvolver a disgeusia ao longo do tratamento oncológico, seja pela própria malignidade da doença ou proveniente das suas formas terapêuticas, em especial a quimioterapia e a radioterapia na região da cabeça e do pescoço. 

A quimioterapia, com o uso de drogas como cisplatina e 5-fluorouracil (5-FU), pode diminuir as funções das células gustativas. A radioterapia atua destruindo as células tumorais e, por não ser seletiva, destrói também as células da gustação. Desta forma, ambas terapêuticas causam a disgeusia. A redução do fluxo salivar, isto é, diminuição da quantidade de saliva na boca, representa também um dos efeitos adversos da radioquimioterapia e se encontra correlacionada com o declínio na percepção do paladar, o que pode gerar uma redução do apetite do paciente, comprometendo sua dieta alimentar.

Os distúrbios do paladar geralmente são resolvidos quando se cessam os estímulos. Pacientes em terapia antineoplásica tendem a retornar o paladar normal dois a quatro meses após finalização do tratamento. Em algumas situações, pode persistir ainda por mais meses. Quando há lesão dos nervos que compõem o sistema gustativo, a disgeusia pode ser permanente.

Algumas condutas para estimular o retorno do paladar normal são: utilização de ervas aromáticas nas preparações dos alimentos, dar preferência a alimentos de sabores mais fortes e que estejam em temperaturas extremas (exceto pacientes com mucosite oral, que devem evitar temperaturas elevadas), e misturar alimentos com diversos gostos. As suplementações com zinco e cobre ou amifostina também têm sido apontadas como formas eficientes para tratar a disgeusia. O uso de ácido alfa-lipóico (ALA), gotas de limão, ginkgo biloba e pilocarpina também podem ser úteis.

A detecção precoce é papel da equipe multidisciplinar (médicos, dentistas, nutricionistas e outros profissionais de saúde) e é imprescindível para a prevenção e o sucesso do tratamento à disgeusia.

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