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Publicada em 22/07/2016 às 00h00. Atualizada em 25/07/2016 às 10h13

Simbologia dos Sonhos e Culturalidade

O professor mestre em Cultura e Sociedade, Ivan dos Santos Messias, fala sobre os sonhos no processo terapêutico, nesta série especial para os leitores do iSaúde Bahia.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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O objetivo deste artigo é analisar os desdobramentos dos sonhos cujas funções incidem na conservação e manutenção do corpo humano. Este texto não se interessa pela origem ou causa das manifestações oníricas, nem pelos estímulos externos e internos, tampouco se eles têm causa divina e espiritual.  Importa destacar o quanto os sonhos são relevantes no processo terapêutico, como força psicológica, nos processos de equilíbrio e cura. Portanto, as manifestações e vantagens dos estados oníricos terão atenção especial. Consequentemente, será enfatizada a função terapêutica, o sentido, o sonho como imagem e metáfora, que qualificam as relações subjetivas e interpessoais.

Em suas pesquisas, o psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung, apresenta as manifestações oníricas como fonte de inspiração, anunciadores de novas perspectivas; elemento divinatório, natural, absorvente do passado, presente e futuro, restaurador da saúde.  As manifestações oníricas nos ligam a todas as épocas de onde pertencemos sem barreiras temporais. Pelos sonhos, viajamos, encontramos respostas para frustrações, doenças, investimentos. Sem dúvida, os estados oníricos direcionam ações, estruturam e estabilizam a psique humana, anunciam realidades emancipatórias. Nesse sentido, o artigo de Kelly Bulkeley trata dos sonhos como fatores religiosos, ou seja, as pessoas atribuem suas expressões oníricas à presença de espíritos comunicadores. A autora empreende uma fenomenologia dos sonhos baseada na culturalidade, na interpretação dada pelas pessoas pesquisadas.

Este artigo, portanto, interpreta os sonhos segundo uma padronagem identitário-religiosa (culturalidade) diferente da tradição freudiana (positivo-estrutural-antropocêntrica). Neste estudo, a culturalidade significa um pensar com matizes específicos, interpretação própria do mundo, dos fenômenos conforme os símbolos disponíveis, compartilhados em um espaço seja religioso, afetivo ou econômico.

"Neste estudo, a culturalidade significa um pensar com matizes específicos, interpretação própria do mundo, dos fenômenos conforme os símbolos disponíveis, compartilhados em um espaço seja religioso, afetivo ou econômico."

A história dos sonhos esteve, por séculos, ligada à revelação dos interesses divinos. As narrativas do povo hebreu, por exemplo, tratam da importância social dos intérpretes de sonhos, bruxos e profetas, ávidos para galgar poder político e emancipação; haja vista as histórias de José que se tornou governador egípcio por inclusive interpretar sonhos do faraó. O caso emblemático na literatura mundial é do anjo Gabriel que anunciou, numa visão, a vinda do Messias. Mas o glamour divino acabou em certos espaços pelo menos. No século XVI, introdução à Era Moderna, o Novum Organum, do filósofo Francis Bacon tentava aniquilar as metafísicas. “O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe”.  A partir desse período, tudo que estivesse ligado à religiosidade, à superstição, ao intelecto corrompido pelos “ídolos” e “escoras do intelecto” era alvo de desdém e descrédito, era desonesto epistemologicamente. Desde então, os fatos têm por natureza uma verdade chamada científica.

Para interpretar os sonhos, o século XIX consolidou concepções mais psicológico-antropocêntricas com análise da estrutura do objeto, sem transcendê-lo conforme esboçaram metodologicamente Aristóteles e Bacon antes do referido século. Sigmund Freud seguiu posteriormente tais ensinamentos criando técnicas e análise das neuroses, dos inconscientes e das manifestações oníricas.

 “Deus morreu” – anunciava o filósofo alemão F. Nietzsche para caracterizar sentimentos, ceticismos, niilismos e práticas filosóficas do período dezenoventista. Essa frase nietzschiana é sequer antropocêntrica, ao contrário, há desdém à racionalidade iluminada; detecta uma Vontade, uma inconsciência instintivo-milenar e caótica que se assemelha aos desvarios das manifestações oníricas.

Na metade do século XX, porém, Jung não só expande as interpretações de Schopenhauer, Nietzsche e Freud como também atribui um caráter simbólico, terapêutico aos estados mentais. “Qualquer psicólogo que tenha ouvido várias descrições de sonhos sabe que seus símbolos existem numa variedade muito maior que os símbolos físicos da neurose”. Sem dúvida, as explicações freudianas e da literatura que o revisa dão respostas e soluções para diversos problemas inscritos nas sociedades modernas, repressivas, maquinais dos séculos XIX e XX. Tratam de desejos e recalques, a partir de experiências dos pacientes e “consulentes”. Sem dúvida, são resultados a partir do empírico, mas subjetivamente interpretado. Entretanto, o sonho não é um fenômeno que resulta dos estados emocionais e orgânicos apenas. Os sonhos possuem códigos silenciosos, secretos, são metáforas e metonímias apresentadas com inversões narrativas; produzem cultura religiosa, modos de vida, éticas, moralidades e reinvenção do cotidiano.

Os psicólogos evolucionistas têm usado novidades em genética, anatomia comparativa e psicologia experimental para argumentar que a religião é formatada por predisposições mentais que são programadas dentro do cérebro humano por pressões seletivas da evolução.

Esse argumento de Bulkeley é pertinente considerando o fato de que não há religião fora da mente humana. Mas o objetivo deste artigo não é confrontar argumentos científicos e religiosos. Aqui, interessa fundar-se no fato de que os sonhos são manifestações universais, existentes. Todos sonham, portanto, há um universalismo biológico, mas também metafísico, gerado, inclusive, pelos tipos de interpretação. A partir disso, é necessário constatar os benefícios das manifestações oníricas e realizar uma fenomenologia da produção sonífera. Os sonhos são um objeto científico porque existem; são um fato mental como a linguagem, o desejo, a frustração, o amor, a dor, o desajuste psíquico, a alegria.

Processos Mentais    

Os filósofos alemães Schopenhauer e Nietzsche diziam que maior parte de nossas ações são inconscientes. As comprovações vieram depois com Freud e Jung, mediante pesquisas e práticas psicanalíticas através da hipnose, observação das complexidades esquizofrênicas, interpretação e análise dos sonhos mesmo com certos resultados especulativos. Posteriormente, Carl Jung estende o conceito de inconsciente, descrito abaixo.

O inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo portanto uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto, desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência, portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade. Enquanto o inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, o conteúdo do inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos.

As imagens oníricas e arquétipos constituem o inconsciente coletivo, que é herdado e comum a toda humanidade – um material inato e universal. O inconsciente coletivo se configura por conteúdos que se diferem dos traumas, das ideologias e complexos do inconsciente pessoal adquiridos na vida social e nos conflitos das relações humanas.

"O inconsciente coletivo é constituído por arquétipos. Entretanto, é preciso salientar que nem toda imagem onírica é um arquétipo. "

O inconsciente coletivo é constituído por arquétipos. Entretanto, é preciso salientar que nem toda imagem onírica é um arquétipo. As narrativas soníferas são infinitas, diversificadas e englobam capítulos, complementos e repetições por vezes do cotidiano, do passado, do futuro sem necessariamente recorrer a símbolos universais. Logo, a simbologia e a conotação são momentos, são episódios seletivos dos estados oníricos. Tudo está numa dimensão extrapessoal, constituindo uma dimensão dupla, de paridades mentais, numa complementariedade entre o pessoal histórico e a inconsciência herdada milenarmente.

“Os arquétipos são imagens inconscientes dos instintos”.  Ademais, os arquétipos não possuem apenas uma imagem personificada como equivocadamente pensamos. Enganamo-nos ao pensar que um arquétipo aparece apenas em forma de monstros, batalhas, unicórnios, foices, caveiras, mulheres misteriosas. Jung especifica os tipos de arquétipo como: 

...arquétipos de transformação. Estes não são personalidades, mas sim situações típicas, lugares, meios, caminhos, etc., simbolizando cada qual um tipo de transformação. Tal como as personalidades, estes arquétipos também são símbolos verdadeiros e genuínos que não podemos interpretar exaustivamente, nem como s?µe?a (sinais), nem como alegorias. São símbolos genuínos na medida em que eles são ambíguos, cheios de pressentimentos e, em última análise, inesgotáveis.

O caráter ambíguo e complexo dos símbolos os torna inesgotáveis, difíceis de serem apreendidos em sua totalidade. “O diagnóstico do inconsciente coletivo nem sempre é tarefa fácil”. O próprio Jung admite que “os conceitos de arquétipo e inconsciente têm dimensão ainda imprecisa, plástica, artificial embora tenha sido comprovado pela experiência”. Tem razão. Embora seja difícil de captar conceitualmente, já não pode ser rebaixado à condição de material metafísico e abstrato, pois, comprovadamente, todos sonham. Pensando nisso, como definir e classificar os sinais, as metáforas e metonímias na expressão dos bêbados, esquizofrênicos, crianças os quais são exímios proprietários da linguagem com silenciamentos e imagens mesmo em estado de vigília? Isso pode ser chamado de extensão da manifestação onírica, inconsciente coletivo ou em qual classificação esse fenômeno se acomodaria?

É necessário acrescentar às reflexões de Freud e Jung que os componentes oníricos não se limitam aos arquétipos nem à variedade de simbologias. Tais recursos são alguns dos patrimônios dos sonhos cuja extensão extrapola as definições dadas por Freud e depois por Jung. Os arquétipos maternos e paternos, por exemplo, nem sempre se apresentam nos sonhos, pois os conteúdos oníricos se expandem além das narrativas clássicas, míticas, arquetípicas. Um sonho pode sequer apresentar símbolos ou metáforas e se referir apenas ao cotidiano imediato do sonhador. Existe infinitude do objeto, inexiste limite criativo. Logo, é arbitrário serem os sonhos classificados apenas pela existência dos arquétipos, das metáforas, dos símbolos, já que tais elementos nem sempre se apresentam nas manifestações oníricas.

“Durante toda a vida ao lado do pensamento recém-adquirido, dirigido e adaptado possuímos um pensamento-fantasia que corresponde a estado de espíritos ancestrais”. Após termos compreendido os conceitos junguianos, percebemos que os símbolos são, de fato, inesgotáveis devido à vastidão de possibilidades criativas, sobretudo curativas em suas orientações, sinais e advertências. Mas, sua abertura e liberdade internas requerem métodos de apreensão alternativos, em vez de desdém acadêmico quanto à suposta incapacidade de ser objetificado.

Para realizar ciência, é preciso delimitar, conceituar o objeto, mas como conhecer princípios de causalidade-efeito, dimensão e tempo se um objeto como o inconsciente, por exemplo, tem movimento incomum, impalpável, embora o sintamos, percebamos sua presença? Creio que haja mais um problema de definição que de materialidade – fácil observar, difícil descrever e mensurar. Caso raro: o significado antecede o significante. O próprio Jung assume sua indefinição conceitual acerca dos materiais imprecisos como arquétipo, inconsciente e ânima. “A única coisa que pode ser estabelecida com certeza no estado presente do nosso saber é nossa ignorância acerca da natureza do fato. Ou seja, como conhecer o inconsciente anímico”. Ignorar, nesse caso, não significa desconhecer manifestações, causas, efeitos, composição, tempo – todos os princípios fundamentais da ciência. Isso não significa que tal abordagem seja imaginária e fictícia. O problema epistemológico se agrava quando Jung afirma: “saber se a estrutura anímica e seus elementos isto é, os arquétipos tiveram origem de algum modo, é uma questão metafísica e não comporta, por isso, uma resposta”. Parece ser contraditório, certo é que qualquer objeto tem como princípio a liberdade interna; tem a peripécia de escapar dos limites, determinações e nomenclaturas aplicados mesmo pelos mais eficientes e rigorosos métodos. Isso explica a revisão e a atualização constantes dos conceitos em todas as áreas do conhecimento. Pouco a pouco vamos percebendo a importância imediata de desvendar tamanho problema. Termos mudam, sentidos são ampliados e revisados.

Referências:

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2. Bacon F. Novum Organum (XLI). São Paulo: Abril Nova Cultural; 2000. (Os pensadores).

3. Bulkeley K. Sacred Sleep: Scientific contributions to the study of religiously significant dreaming. In: Barret D, Mcnamara P, editors. The new science of the dreaming. Chap 3. P 3-71. Westport, Conn: Praeger Publishers; 2007. [Cited 2016, Feb 12]. Available from: www.kellybulkeley.com/<wbr></wbr>pdfs/ sacredsleep.pdf.

4. Jung CG. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. [Trad. Maria Luíza Appy, Dora mariana R. Ferreira da Silva]. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes; 2000. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1).

5. Jung CG. Símbolos da transformação. Trad. Eva Stern. Petrópolis, RJ: Vozes; 1986. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 5).

6. The diamond jubilee Thames Pegeant. 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=bmGqWdYEw_w

7. Hartmann E. The nature and functions of dreaming. New York: Oxford Universal Press; 2011.

8. Festa da mestra Ritinha da Rua da Guia. 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=rvDlXV5DS44

9. Good News Bible: The bible in today`s english version. New York: American Bible Society; 1976.

10. Jung C G. Psicologia e alquimia. Petrópolis, RJ: Vozes: ????. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 12). Originalmente publicado em alemão em 1944/1994.

11. Shakespeare W. Romeu e Julieta; Macbeth, príncipe da Dinamarca; Otelo, o mouro de Veneza; Traduções de Cunha FCA, Mendes O. São Paulo: Abril Cultural; 1981.

12. Milhorin TK, Karin A, Casarini KA. Os sonhos nas diferentes abordagens psicológicas: apontamentos para a prática psicoterápica. Rev. SPAGESP. 2013[acesso em: 14 fev. 2016];14(1):79-95. Disponível em: &nbsp;pepsic.bvsalud.org/scielo.php?<wbr></wbr>script=sci_arttext&pid=S1677- 9702013000100009.

14. Novaes B, Rudge AM. A função da linguagem em Bakhtin e Lacan. Tempo psicanál. 2007 [acesso em: 16 fev. 2016]; 39:157-178. Disponível em: www.cefetsp.br/edu/<wbr></wbr>sertaozinho/revista/volumes_anteriores/<wbr></wbr>volume1numero2/ ARTIGOS/volume1, número2, artigo1.pdf.

15. Saussure F. Curso de linguística geral. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix; 2006.

16. Rodrigues N. A vida como ela é... O homem fiel e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras; 1992.

17. Nietzsche F. Sabedoria para depois de amanhã. São Paulo: Martins Fontes; 2005.

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