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Publicada em 16/09/2020 às 15h50. Atualizada em 16/09/2020 às 15h53

Suicídio: uma das principais causas de morte no mundo

A cada ano, 800 mil pessoas tiram a própria vida, segundo a OMS

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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"O ato de dar fim à própria vida voluntariamente é um fenômeno paradoxal, multifacetado e complexo, não havendo uma causa específica para o problema."

O ato de dar fim à própria vida voluntariamente é um fenômeno paradoxal, multifacetado e complexo, não havendo uma causa específica para o problema. É, portanto, resultado de múltiplos fatores de ordem ambiental, cultural, biológico, psicológico, político que impactam a vida do sujeito. Atualmente é uma das principais causas de morte no mundo, contabilizando um milhão de mortes anuais e com tendência de crescimento nas próximas décadas, o que o torna um importante problema de Saúde Pública. De acordo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada ano cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida, o que corresponde a um suicídio a cada 45 segundos em algum lugar do planeta. É um fenômeno presente em todas as faixas etárias, constituindo-se a segunda causa de morte entre indivíduos de 15 a 29 anos, sendo estes os mais vulneráveis, o que implica na necessidade de ações de prevenção para esse público. As estimativas têm mostrado um aumento expressivo do número de casos no Brasil.

O comportamento suicida, refere-se a um continuum de autoagressões que envolve ideação, ameaças, tentativas e atos suicidas. As condutas autolesivas, muito comuns entre adolescentes, podem, ou não, ser caracterizadas como comportamento suicida, já que existe a autolesão sem intenção suicida, mas que merece igualmente muita atenção, visto que são sinais de sofrimento e podem contribuir para o aumento do risco de suicídio. A adolescência é a fase da vida a partir da qual surgem as características sexuais secundárias e se desenvolvem os processos psicológicos e os padrões de identificação, que evoluem da fase infantil para a adulta. A transição de um estado de dependência para outro de relativa autonomia e a reorganização psíquica, em que o passado e o presente precisam ser associados, geralmente ocasionam muitas dúvidas, incertezas, conflitos pessoais e familiares, e, em alguns momentos, uma dor insuportável. Neste caso, pode, em algumas situações, fazê-lo buscar soluções imediatas por meio de comportamentos agressivos e suicidas.

Por não possuírem plena maturidade emocional, encontram maiores dificuldades  para lidar com situações estressantes importantes, como o fim de um relacionamento, circunstâncias que provocam humilhação, atitudes de rejeição, perda de uma pessoa querida e baixo rendimento escolar, o que os tornam vulneráveis ao imediatismo e à impulsividade. Eventos como esses podem desencadear atos suicidas. Pensamentos de suicídio são frequentes na adolescência diante de estressores agudos. Geralmente, são passageiros, não sugerem psicopatologia ou demandam intervenção. Porém, quando os pensamentos se tornam intensos e persistentes, aumentam o risco de levar a um comportamento suicida.

Existem alguns fatores de risco e alerta para o comportamento suicida entre jovens, tais como: irritação ou agitação excessiva do adolescente; sentimento de tristeza, baixa autoestima e impotência; relatos de violência psicológica, física, sexual ou negligência; problemas de saúde mental do adolescente e/ou de seus familiares, especialmente a depressão e ansiedade; uso de álcool e/ou outras drogas; histórico familiar de suicídio; ambiente familiar hostil; falta de suporte social e sentimentos de isolamento social; sofrimento e inquietações sobre a própria sexualidade; interesse por conteúdos de comportamento suicida e/ou autolesão em redes sociais virtuais; doação de pertences que valorizava e tentativas prévias de suicídio. Importante ressaltar que uma tentativa anterior aumenta o risco de concretização do suicídio cerca de cem vezes em relação a quem nunca tentou, sendo este o principal fator de risco para a efetivação do intento. No que concerne aos transtornos mentais, os mais comumente associados são: depressão, transtorno de humor bipolar, dependência de álcool e de outras drogas psicoativas, esquizofrenia e certos transtornos de personalidade. A coexistência destas condições potencializam a situação de risco. De forma geral, podemos entender que a presença de um transtorno mental é identificada como um importante risco para o suicídio e o agravamento de seus sintomas em vigência da pandemia se configura como um risco ainda maior.

"Importante ressaltar que uma tentativa anterior aumenta o risco de concretização do suicídio cerca de cem vezes em relação a quem nunca tentou, sendo este o principal fator de risco para a efetivação do intento."

 O contexto da pandemia de COVID-19 e seus impactos na saúde mental podem ocasionar desde reações de estresse agudo, devido à necessidade de adaptações à nova rotina, o que é esperado, até agravos mais intensos de sofrimento psíquico. Considerando as estatísticas que registram o aumento dos casos de tentativas e suicídios após eventos extremos, entende-se como fundamental o desenvolvimento de estratégias de prevenção, acompanhamento e posvenção. Como dito anteriormente, o suicídio é um fenômeno multifatorial e complexo, e, em contexto de uma pandemia, pode ocorrer aumento no seu número de casos devido a diversos fatores como: solidão, desesperança, acesso reduzido a suporte comunitário e religioso/espiritual, medo, dificuldade de acesso ao tratamento de saúde, isolamento, doenças e problemas de saúde, situações de violência familiar, suicídio de familiares ou pessoas conhecidas. De forma geral, podemos entender que a presença de um transtorno mental é identificada como um importante risco para o suicídio e o agravamento de seus sintomas em vigência da pandemia se configura como um risco ainda maior.

Apesar de o cenário de pandemia ser potencializador do sofrimento humano, medidas de proteção podem ser adotadas por profissionais de saúde no atendimento dos casos, por exemplo: acolher a pessoa sem julgamentos e considerar o ato como um sinal de alerta para evitar um novo episódio suicida; ter uma escuta cuidadosa, respeitosa e séria; evitar apontar culpados ou causas; não duvidar, desqualificar ou minimizar o relato de desejo de morte; em casos suspeitos ou confirmados de violência autoprovocada, realizar notificação compulsória às autoridades sanitárias; avaliar necessidade de outros encaminhamentos, como da rede de proteção social, quando há suspeita de motivação intrafamiliar ou de violação de direitos; orientar a família sobre a vigilância em relação aos meios que podem ser utilizados numa tentativa de suicídio. Ressalta-se que impedir o rápido acesso aos meios é uma das grandes medidas de prevenção.

Portanto, é importante compreender que o comportamento suicida presente no adolescente retrata um pedido de ajuda frente a um sofrimento psíquico intenso, caracterizando-se como um alerta para que os contextos família, escola, comunidade e profissionais de saúde, atuem de modo integrado e efetivo, estabelecendo estratégias de prevenção, baseadas em fatores de proteção e rede de apoio, podendo prevenir uma morte evitável.

Referências:

BOTEGA, N. J. (2015 ). Crise Suicida: Avaliação e Manejo. São Paulo. Artmed.

OLIVEIRA, AM.;BICALHO, C.M.S.;TERUEL, F.M ; Kahey LL.; Botti NCL. (2017): Comportamento Suicida entre Adolescentes. Revisão Integrativa de Literatura Nacional. Adolesc. Saúde 2017; 14 (1) : 88-96

MINISTÉRIO DA SAÚDE: Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia Covid-19: Suicídio na Pandemia Covid-19. FIOCRUZ Brasília,2020. Recuperado de https://portal.fiocruz.br/noticia/covid-19-e-saude-mental-cartilha-aborda-prevencao-do-suicidio

WERLANG, B.; BORGES, V., & FENSTERSEIFER, L. (2014). Indícios de potencial suicida na adolescência. Psicologia Revista, 14(1), 41-57. Recuperado  de https://revistas.pucsp.br/psicorevista/article/view/18125/13480.

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