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Publicada em 15/05/2014 às 11h15. Atualizada em 18/05/2014 às 10h06

Você entende o movimento pela Luta Antimanicomial?

Para aprofundar o assunto, o iSaude Bahia conversou com o psiquiatra mexicano, Dr. Alejandro Patiño Román.

CONTEÚDO HOMOLOGADO Bahiana
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Respeitar os direitos humanos dos pacientes com transtorno mental e oferecer um tratamento mais humanizado são algumas das frentes da Luta Antimanicomial. Uma das ferramentas possíveis é o modelo do Hospital Dia, relatado nesta entrevista pelo psiquiatra Dr. Alejandro Patiño Román. O médico realiza, nesta sexta-feira, uma palestra na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.Confira e aprenda mais sobre o assunto.

iSaúde Bahia - Em âmbitos globais, como vê o Movimento pela Luta Antimanicomail? O que ele preconiza?

" O movimento antimanicomial, para mim, é compreensível porque o paciente mental recebe um tratamento de confinamento em instituições onde sofre marginalização social e, muitas vezes, familiar."

Dr. Alejandro Patiño Román - O movimento antimanicomial, para mim, é compreensível porque o paciente mental recebe um tratamento de confinamento em instituições onde sofre marginalização social e, muitas vezes, familiar. Penso que essas pessoas devem receber um tratamento, assim como qualquer outro paciente de doença crônica, sendo, portanto, atendido pelo médico com compreensão e dignidade. Indo mais a fundo, o problema não está ligado à saúde mental exatamente, mas às variáveis sociais, econômicas e políticas e, por isso, essa luta é radicalmente profunda, pois se refere a uma consciência global para obter o reconhecimento, de forma complexa, do que seja a doença mental e da validade dos direitos humanos do paciente psiquiátrico.

iSB - Ao utilizar o termo “antimanicomial”, referindo-se a manicômio, não se estaria dando um tom pejorativo e, portanto, desqualificando a função dos hospitais psiquiátricos?

Dr. Alejandro Patiño Román- Sim, de certa forma a palavra manicômio tem uma forte carga ideológica que gera medo, rejeição e distorce os objetivos reais do que é um hospital psiquiátrico, em termos técnicos modernos. Falar de “manicômio” origina uma rejeição não somente da unidade psiquiátrica na sociedade, mas também do paciente psiquiátrico, dificultando que ele seja tratado de forma adequada em um hospital psiquiátrico. 

iSB - Qual a alternativa à interação de pessoas que estão em episódio agudo da doença, precisando de um breve internamento que não os hospitais e unidades psiquiátricas? 

Dr. Alejandro Patiño Román - Quando uma pessoa está em crise de enfermidade mental, como é o caso da esquizofrenia e da bipolaridade, não necessariamente precisa de um internamento, mas de vigilância contínua que não pode ser realizada pela família. Esse cuidado deve está sob a responsabilidade de profissionais, já que põe em risco a vida do paciente e de outras pessoas. O tratamento médico ajuda no controle dos sintomas mais severos, mas não cura e, às vezes, tarda em fazer efeito, o que só pode ser realizado em hospital psiquiátrico, porém de forma ambulatorial, tendo continuidade com o tratamento farmacológico e clínico.

iSB - No caso de Salvador, onde não temos uma rede de apoio, inclusive não contando com um CAPS III (para breves internamentos) qual seria outra forma de lidar com esses casos mais graves?

Dr. Alejandro Patiño Román - Educar e informar a família de maneira individual e através de um grupo de profissionais: o que é? como atender? como vigiar o doente mental para ter um controle em 24 horas do dia, com a alternância de familiares responsáveis pelo seu cuidado, pela administração das medicações. Mas devo alertar que essa não é a melhor solução, porque o doente mental não tem controle dos episódios agudos da doença e os entes familiares, obviamente, têm seus próprios afazeres. Por isso, promover a formação de centros de atendimento é muito importante e o Estado deve se responsabilizar com o assunto para que se proporcionem serviços desse tipo que são de suma importância.

iSB - A lei prevê a existência de leitos psiquiátricos em hospitais gerais e, em Salvador, o único que dispõe desse sistema é o Hospital das Clínicas (UFBA) que interna apenas mulheres. Não seria o caso de reavaliar as estratégias de ação de hospitais como o Juliano Moreira, ao invés de extinguir esse formato?

"A experiência do México foi um fracasso em unificar o atendimento dos doentes mentais com os pacientes gerais, onde se gerou uma desarmonia entre os pacientes (mentais) e os médicos que não estavam capacitados para atendê-los..."

Dr. Alejandro Patiño Román - Pessoalmente, penso que o atendimento hospitalar dos pacientes mentais é de suma importância e não deve estar em um só hospital, devendo ser ampliado o número de leitos especializados em outras unidades. A experiência do México foi um fracasso em unificar o atendimento dos doentes mentais com os pacientes gerais, onde se gerou uma desarmonia entre os pacientes (mentais) e os médicos que não estavam capacitados para atendê-los, originando uma distorção na prática médica e um mau atendimento dos pacientes mentais.

iSB - Com relação a pacientes com transtornos mentais que cometem crimes, qual seria a atitude frente aos hospitais de custódia?

Dr. Alejandro Patiño Román - Os pacientes que cometem crimes evidentemente são perigosos para si e para a sociedade e requerem confinamento especial, que, no México, chamamos fazendas psiquiátricas com um pessoal capacitado para evitar condutas agressivas, devendo existir médicos e enfermeiros que compartilhem um método de trabalho que mantenha o paciente ocupado, geralmente com trabalhos agrícolas. É necessário deixar claro que esses pacientes têm direito jurídico, pela sua condição, de evitar o sistema carcerário comum, sendo vigiados por policiais treinados que atuem nessas instituições especiais.

iSB - O modelo de atendimento humanizado e a criação de residências terapêuticas são grandes avanços em saúde mental no Brasil. No México, existe um movimento nesse sentido? Destacaria algumas iniciativas de lá?

Dr. Alejandro Patiño Román - A partir dos anos 1960, iniciaram-se no México reformas importantes para humanizar as terapias psiquiátricas em hospitais e clínicas que existem até hoje e estão melhorando, com o tempo. Um desses exemplos, precisamente, é o Hospital Dia que possibilita maior liberdade jurídica e medicamentosa aos doentes mentais e os familiares mostram-se satisfeitos com o modelo. Quero acrescentar que o pessoal que trabalha nessas instituições deve ter condições que garantam o pleno funcionamento dessas unidades. Por outro lado, a consulta externa tem sido ampliada para poder tratar os pacientes mentais controlados, assegurando que a família esteja em contato contínuo com esse serviço para poder acompanhar antes que haja uma recaída. Os familiares participam dos cursos sobre os transtornos mentais de seus entes, os quais lhes explicam o que é que ele tem? Como tratar/cuidar? E o que fazer para atendê-los.

iSB - Fala-se em Holocausto Mexicano e Holocausto Brasileiro quando se refere à história de algumas unidades de saúde mental como o hospital Colônia, em Barbacena (Brasil) e o La Castañeda, no México, onde dezenas de milhares de pessoas morreram privadas de seus direitos humanos. Será que não existem hospitais e unidades psiquiátricas onde o tratamento é realizado de forma humanizada?

Dr. Alejandro Patiño Román - Há muito tempo que La Castañeda, no México, não abriga os milhares de doentes mentais, situação que tornava impossível um tratamento adequado e se juntarmos a isto a falta de um financiamento correto, vê-se que realmente não era possível oferecer uma assistência humanitária. Atualmente, no lugar de La Castañeda existe um hospital moderno chamado Hospital Psiquiátrico Fray Bernardino Álvarez, onde são oferecidos todos os serviços modernos necessários para um pleno atendimento dos doentes mentais, com tratamentos medicamentosos atuais e uma grande equipe interdisciplinar altamente capacitada, tornando possível o respeito aos direitos humanos dos pacientes. Efetivamente houve um avanço da atenção, no que tange à humanização, porém estamos falando de uma cidade de 20 milhões de habitantes e, portanto, esse serviço é insuficiente. Se necessário, uma maior vontade política para aumentar o financiamento de mais serviços e de pessoal capacitado na área. É importante entender que o paciente com transtorno mental se diferencia dos demais pacientes, pois não conta com a compreensão e compaixão da sociedade que reage com medo. É uma realidade inescapável.

iSB - Explique um pouco o conceito do Hospital Dia para pessoas com transtornos psiquiátricos?

Dr. Alejandro PatiñoRomán - O Hospital Dia é um conceito antigo que nasce na Rússia, em 1926, mas, em função da "cortina de ferro", não foi possível o Ocidente conhecer sua trajetória e a evolução dessas instituições. Em outros países do Ocidente, evidentemente, o doente mental vive hoje em melhores condições do que no início do século XX. O Hospital Dia possibilita, como disse anteriormente, uma maior liberdade do paciente, permitindo-lhe mais contato com sua família e com a sociedade. Um ponto essencial é que os pacientes têm um atendimento humanizado e a resposta positiva é percebida por seus familiares. O trabalho é interdisciplinar e conta com um serviço de psicoterapia em grupo e individual, enfermaria, interação contínua entre os pacientes e os profissionais de saúde, tarefas ocupacionais e jogos desportivos trazendo certa alegria ao conjunto do serviço.

iSB - O conceito do Hospital Dia parece uma forma realmente humanizada de lidar com o problema. Como esse modelo lidaria no caso de uma pessoa em episódio agudo da doença?

Dr. Alejandro Patiño Román - No caso de um paciente com um episódio agudo da doença, não é possível que o paciente seja tratado no Hospital Dia, porque sua crise vai além dos serviços promovidos por essa unidade de saúde, necessitando de uma internação hospitalar até estabelecer o controle clínico e farmacológico. Deve-se tratar de um internamento breve, para que receba os devidos cuidados, por uma equipe profissional capacitada para dar a devida atenção, observando os sintomas e buscando o restabelecimento e sua readaptação à família e ao convívio social. O Hospital Dia não pode atender pacientes mentais em crises agudas que, como diz seu próprio nome, funciona apenas durante o dia e em horários bem definidos. Além disso, existem pacientes com transtorno mental com idades que não se adequam a esse serviço e que devem ser tratados nos hospitais psiquiátricos com o necessário apoio da família. O objetivo básico do Hospital Dia é reabilitar o paciente com transtorno mental a conviver com sua família e com a sociedade e, para isto, ele precisa estar clinicamente estável e bem controlado farmacologicamente. O Hospital Dia é um serviço caro,  porém mais econômico que o internamento do paciente com doença mental. Toda a reabilitação, em especial com os pacientes esquizofrênicos, é relativa, já que eles podem voltar a manifestar crises agudas, situação que se vê com muita frequência no Hospital Dia.

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